Calcular o retorno total da ação

Calcular o retorno total da ação

Vamos ilustrar nesse artigo como funciona a dinâmica de retorno das ações na bolsa de valores. Vou usar um exemplo para mostrar como devemos calcular o retorno total de um ativo que distribui dividendos. Muitas pessoas só analisam o retorno das ações olhando apenas os ganhos de capital ou apenas os dividendos. Quando se tem um ativo na carteira deve-se olhar os dois.

Madara e seu Opala

Hoje pedi emprestado ao meu primo Madara $10.000 e prometi retornar essa grana daqui a 1 ano. Eu até dei a ele um papel com minha assinatura, comprometendo-me a paga-lo. Se não pagar, o primo Madara poderá colocar-me no SPC. Do ponto de vista do Madara esse negócio é um investimento, do meu ponto de vista é uma dívida.

Se o Madara é meu amigo ele certamente iria emprestar essa grana sem cobrar juros. Para não ficar apenas na amizade e comprometer meu relacionamento com o Madara, adicionei um prêmio de $800 que posso pagar aos pouco antes de encerrar a minha dívida. Então eu irei pagar os $10.000 do empréstimo e $800 de juros ao Madara.

Os $800 serão pagos em até um ano. Esse valor é conhecido como Dividend Yield. No caso esse empréstimo tem um Yield de 8% que é os $800 dividido por $10.000. Os 8% são bem mais que a inflação da época e provê um retorno decente para o meu primo.

Logo depois de emprestar o dinheiro, Madara abriu o jornal e viu o anuncio de um Opala Coupé 75. Ligou para o anunciante. Kakashi disse-lhe que o Opala custava exatos $10.000. Infelizmente, ao menos pela perspectiva do Madara, ele não pode obrigar-me a devolver o dinheiro emprestado. Tenho uma obrigação legal de apenas devolver a grana depois de um ano.

Opala do Madara
Opala do Madara

Madara pensou em ir em algum banco e pegar um empréstimo para comprar o Opala, mas os juros não seriam convidativos. Então Madara chegou até você e mostrou-lhe a nota de crédito que ele tem comigo. Ofereceu vender essa nota de credito a você.

Você que não é nada bobo, sorri para Madara e diz que pagaria $9.500 pela nota de crédito. Madara vende na hora a nota para você, ele está doido para comprar um Opala a muito tempo, e não se importaria em perder $500 nessa jogada.

Vamos considerar a situação agora do seu ponto de vista. Os termos da nota do empréstimo não mudaram, eu irei pagar os $10.000 do principal a você e ainda os $800 de juros. Se você comprou a nota por $9.500 você teve um ganho de capital de $500 além dos 8% de Yield.

Os ganhos vieram de dois lugares, ganho de capital e dividendos.

$800 de juros / $9.500 = yield de 8,4%

+ $500 ganho de capital / $9.500 = ganho de capital de 5,3%

= $1.300 lucro total / $9.500 investimento = retorno total de 13,7%

É Gordon mas não é o comissário

Nós acabamos de ver com o exemplo do Madara que não é correto olhar de forma isolada Dividend Yield ou Ganho de Capital para medir o retorno de um ativo.

É muito comum aqui no blog aparecer pessoas dizendo: “nossa Viver de Dividendos essa ativo não é atrativo porque tem X% de Dividend Yield.”

Ou as vezes, muito pior, eles chegam falando: “nossa Viver de Dividendos esse ativo tem um P/L muito alto, eu não invisto em empresas com esse P/L.”

Talvez você esteja chegando aqui pela primeira vez e não tenha visto alguns artigos que escrevi mostrando porque isso é errado.

Sobre olhar Dividend Yield escrevi que é melhor olhar o crescimento do DPA e não o DY do ativo.

Sobre usar P/L para analisar retorno de ativo eu já escrevi um artigo mostrando como utilizar o Dividend Discont Model do Gordon Growth Model.

O Modelo de Desconto de Dividendos mais conhecido como DDM é usado para valorizar o preço de uma ação usando dividendos futuros previstos e descontando-os de volta o valor presente. Se o valor do calculo for maior que o valor atual da ação significa que a mesma está subvalorizada.

O Modelo foi desenvolvido por Myron J. Gordon e Eli Shapiro, mas a fórmula ficou conhecida como Modelo de Gordon.

Calculando o retorno total

Toda semana na minha página de Carteira, são uns três comentários sobre retorno dos meus ativos. É comum aparecer algo como: “Viver você recebe X de dividendos e tem investido Y, eu achei muito pouco”. Podem acessar lá que vai ver inúmeros casos desses nos comentários.

Acho engraçado que pessoas assim não conseguiram ainda entender o básico de um investimento em ação. O RETORNO TOTAL que apresentei no início do artigo, e querem questionar a estratégia alheia.

Ao longo desses quase 5 anos investindo na bolsa, em ações de crescimento de dividendos, minha bola de neve multiplicou de forma bem agressiva. Mas os caras não conseguem ver, pois isso é só uma ponta do iceberg a outra parte está no ganho de capital.

Dividendos recebidos anualmente até 2018
Dividendos recebidos anualmente até 2018

Pega por exemplo os ganhos de patrimônio. Venho publicando todos os meses nos artigos sobre orçamentos, e verá o poder que as ações possuem quando considera-se o retorno total.

Aumento de patrimônio de 2,79% num único mês
Aumento de patrimônio de 2,79% num único mês. Veja o Twitter aqui.

Peters do MorningStar simplificou a fórmula de retorno total fazendo o seguinte:

Dividend Yield + Dividend Growth = Retorno total esperado

Peters Total Return Model

Troque suas fraldas mas não troque a JNJ de mãos

Vamos ilustrar isso com o exemplo da Johnson & Johnson. Se olharmos apenas o Dividend Yield da JNJ teremos um retorno anual de 2,59% sendo o dividendo atual de $3,60 ao ano dividido pelo preço de $139,20 (cotação de 25/04/2019).

Um Yield em dólar de 2,59% para mim já é bem legal. Lembre-se que você está posicionado numa das moedas mais fortes do mundo. Não adianta você ter 5% de Yield no câmbio que em um mês está R$ 2,00 para cada dólar e no ano seguinte salta para R$ 3,90 cada dólar. Se comprar $1 (um dólar hoje) ele continuará valendo $1 dólar amanhã. Isso é uma moeda forte.

Levantando um histórico de crescimento dos dividendos da JNJ teremos o seguinte:

Taxa crescimento dividendos JNJ
1 ano 3 anos 5 anos 10 anos
6,6% 6,3% 6,4% 7%

Vamos considerar um crescimento de 6,5% nos dividendos da JNJ.

Se somarmos 2,59% (yield) + 6,5% (crescimento dividendos) = 9,09% de retorno total esperado.

Um retorno de +9% é um excelente retorno. Novamente, lembre-se que é um retorno em dólar. Apesar de 9% já ser bem interessante quando o mercado se depara com um ativo desses ele geralmente acaba pagando mais e mais por isso.

Quer uma prova disso, vamos olhar ao longo de 10 anos históricos da JNJ.

Últimos 10 anos de retorno da JNJ
Comprei em abril 2009 por $51,40
Vale hoje abril 2019 $139,20
Nos 10 anos recebi de dividendos $27,40
Meu retorno total foi de 224,20%

Dando um retorno total de 224,20% um baita retorno CAGR de 12% ao ano. Dificilmente encontrará uma classe de investimento que entregue-lhe isso hoje. E a JNJ nem é um ativo tão top a nível de retorno, estou pegando um exemplo mais pobre para vocês não falarem que estou sendo tendencioso.

Conclusão

Quando combina ativos bons como os da carteira Top Picks do Ex-Dividend ou outros ativos como os que tenho na carteira passa a ter aumentos de 2,79% ao mês em seu patrimônio.

São 2,79% já retirando os aportes dessa conta, ou seja o patrimônio subtraído os aportes aumentou em 2,79% em um mês, não é ao ano não, faça as contas.

Em resumo, pare de ficar olhando só DY para mensurar o retorno de um ativo, pois estará olhando só metade do bolo e pare também de ficar olhando apenas o ganho de capital porque estará perdendo a outra metade.

Não adianta cavar rápido e fundo se está cavando no lugar errado.

Você perde muitas oportunidades porque está olhando para o lugar errado.

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